Cheguei em casa após um dia de trabalho de minha comum e repetitiva vida. Eu trabalhava em um banco. Sempre sonhei em trabalhar com dinheiro. Adorava dinheiro. Porém não tinha nenhum. A casa estava vazia, um breu. Tentei acender a luz, mas me lembrei que essa tinha sido cortada devido ao não pagamento das contas. Então você se pergunta: “Mas como um bancário não tem dinheiro para pagar uma simples conta de luz?”. E eu te repondo: “Bingos!”. Minha família não ia mais me ajudar. Mas não por que esses não queriam, e sim por que meu orgulho se recusava a tirar dinheiro daquelas pessoas simples que me criaram com tanta educação. Sim, a situação estava complicada e eu não sabia mais o que fazer. Mas não estou contando a historia de um viciado em jogos que começou a se tratar por sua falta de controle. A minha historia era outra. E essa era fruto das situações problemáticas que me rodeavam.
Era o ano de 1998. Eu estava deitado em minha cama sem conseguir dormir. Normalmente tenho insônia quando os problemas me dominam. Aliás, muito prazer. Meu nome é Diego, tenho 33 anos, sou solteiro e não tenho um tostão em meu bolso. Mas como ia dizendo, minha vida estava realmente cabeluda, como diria meu velho pai, e eu estava enlouquecendo comigo mesmo. Afinal, como pude deixar a situação chegar a esse ponto? Eu, uma pessoa tão dedicada e inteligente! Eu, a criatura mais organizada da face da terra! Eu, uma pessoa não tão modesta, mas mesmo assim humilde! Como pude ser tão errado? Sim, eu uso a palavra errado. Por que era exatamente isso que eu era, um errado. Era exatamente como essa situação era. Errada. Mas só não uso errado para meu futuro por que isso era pouco para denominar a situação que se seguiria.
“Bom dia, Diego.” Disse meu chefe quando entrou na salinha 4x4 que eu habitava. Decorada com nada além que uma pilha de papeis, um computador que um dia foi branco e uma impressora barulhenta. “Hoje à noite, eu irei receber clientes muito importantes no restaurante Le Lieu, às sete horas em ponto. Esteja lá!”. Direto e claro. Esse era meu chefe. Mas vamos pular a apresentação desnecessária e ir direto para o Le Lieu. O restaurante não apenas mais chique da cidade mais como o mais caro também. E eu estava agradecendo a todos os santos existentes por não precisar pagar a conta naquele recinto.
Quando cheguei, meu chefe estava me esperando numa mesa mais reservada do restaurante. Tudo brilhava naquele lugar. Meus olhos começaram a arder. Me sentei e começamos a discutir sobre os percentuais de uma pesquisa bancaria que eu tinha feito hoje cedo. E então dois homens de preto entraram, Giovanni e Marcus. Eu os conhecia. Eram os famosos clientes. Eles se sentaram e pedimos um drinque. Conversamos, conversamos e conversamos. Após minha boca já estar seca, decidimos pedir a comida, mas não vou comentar como foi embaraçoso deixar o escargot cair. Em seguida, comentamos algo sobre os bancos europeus e Giovanni tirou sua carteira do bolso para mostrar a foto de suas duas filhas que já tinham sete anos de idade. Não pude deixar de reparar como sua carteira continha uma quantidade enorme de cartões e se não me falhou o olhar, um pequeno, mais de grande valor bolinho de dinheiro. E então, o maravilhoso episódio que eu me arrependo até hoje se sucedeu.
Não tenho certeza se foi o drinque misturado com aquela comida gosmenta, ou a pressão que as empresas estavam fazendo para que eu pagasse as contas. Ou tudo misturado. Só sei que o que aconteceu está feito e eu, infelizmente, não posso voltar atrás. Se arrependimento matasse, eu já estaria me decompondo no meu caixão de segunda mão há muito tempo. Mas voltando aos fatos, Giovanni estava fazendo as honras do pagamento, retirando o lindo cartão preto e prata de nosso banco e o passando na maquininha quando sua carteira caiu. Por que a lei da gravidade não pode ser um pouquinho a favor da minha situação de não controle e não deixou aquela carteira que não me pertencia no bolso dele? O fato é que, ninguém viu a carteira cair. Ninguém a pegou. Ninguém, nem mesmo o dono, deu a falta dela. E eu a escondi silenciosamente.
Duas semanas depois, o mesmo episodio ocorreu. Mas desta vez, não era com uma carteira e não envolvia bancos. Eu estava aliviado por ter conseguido pagar as contas importunas que me perseguiam, e me dei o luxo de tentar resolver minha vida civil. Luana era uma grande amiga minha que, como boatos diziam, tinha um grande carinho por mim, para não dizer outras coisas. Ela vinha de uma família muito nobre, e dinheiro era o que não faltava em sua vida. Certas vezes me perguntava por que ela trabalhava. Resolvi então convidá-la para jantar. Afinal, uma boa janta acompanhada de boa companhia poderia me trazer certa paz. Já sei o que vocês estão pensando. Ele esta interessado nela pelo dinheiro. Mas já vou me defendendo dizendo que minha relação com ela não tinha nada haver com o dinheiro, por que sim, eu também tinha um carinho por ela. Mas não ia unir o útil ao agradável, como muitos diriam. Principalmente depois do episódio número dois ter ocorrido.
Ela estava linda com aquele vestido vermelho. Acho que eu deveria ter me arrumado melhor. Quero dizer, aquele colar de rubis com certeza realçava o charme que ela já tinha. É, eu deveria realmente ter me arrumado melhor. Porém preferi usar o dinheiro de Giovanni para outras utilidades. Mas vamos pular toda essa parte do arrependimento e da janta e vamos ir direto para a parte do beijo. Sim, ela me beijou. Será que eu sonhara isso? Eu estava a acompanhando de taxi até sua casa e quando fomos nos despedir ela me beijou. Simplesmente me beijou. E eu gostei. Quando voltei ao taxi percebi que tinha sentado em alguma coisa dura, e quando fui ver o que era, adivinhem? Sim, o colar. Fiquei alguns segundos admirando aquelas pedras brilhantes que mesmo no escuro brilhavam. Não, isso era errado. Pior que errado, catastrófico! Essa era a palavra certa! Finalmente achei a palavra que denominava a presente situação de minha vida. “Você simplesmente não pode ficar com isso Diego. Ela é sua amiga!” era o que dizia a voz na minha cabeça. Mas o taxi já tinha arrancado e a jóia ainda estava em minhas mãos. Eu nunca a devolveria.
Eu sei que poderia ter dito a verdade, quando ela me ligou perguntando sobre o colar, ou no trabalho onde nos encontrávamos todos os dias. Porém não consegui. Mesmo depois que ela revelou que o colar era de sua avó. Eu me sentia extremamente culpado. Mas essa culpa não era o suficiente para me guiar para o caminho certo. Essa, e todas as culpas que se seguiriam não eram suficientes. Aliás, meu nome é Diego. Tenho 33 anos, ainda sou solteiro, mas tenho algum dinheiro em meu bolso. Muito prazer.
terça-feira, 27 de outubro de 2009
A ocasião faz o ladrão
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